Uberlândia Clube: O edifício símbolo da 'high society' uberlandense
31/08/2025
(Foto: Reprodução) Uberlândia Clube na rua Santos Dumont
Roberto Vieira da Silva
Naqueles tempos, quando Uberlândia ainda era chamada de São Pedro de Uberabinha, os coronéis construíam palacetes com uma sala de visitas enorme onde os filhos e amigos da elite se reuniam. Como na cidade ainda não existiam clubes, poucas praças, ou ruas dignas de receberem os filhos para o “vai-vem”, ou “footing”, como preferiam chamar na linguagem americanizada, essa foi a estratégia criada por eles para os encontros da alta sociedade.
Foi só em 1931, após o fechamento do “Selecto Club”, uma salinha localizada na parte de cima de um sobrado, na Praça da Liberdade, atual Clarimundo Carneiro, tão pequena que, durante o Carnaval, os foliões precisavam alugar barracões para brincar, que o libanês José Abadulmassih iniciou a construção de sua casa na Praça Tubal Vilela. No último andar, ele instalou um amplo salão destinado à criação de um novo espaço recreativo: o Uberlândia Clube.
Apesar do embrião, só em 1938 que o clube foi oficialmente inaugurado com festa com atração internacional, a Orquestra Casino de Sevilha.
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Exclusivo da alta sociedade
Segundo o historiador Antônio Pereira, no local apenas a "high society" era permitida, sendo barrados na porta os negros e as mulheres viúvas. Dentro da enorme instalação aconteciam bailes semanais, reuniões de negócios e eventos que historiador descreve como cheios de “luxo e esplendor”.
Eram pessoas elegantes, com um certo ar de superioridade. Naquela época, era comum que a pessoa “tomasse ares”, exibindo uma postura autoritária e distinta.
“Para entender isso, precisamos considerar o contexto histórico de Uberlândia: havia uma distância muito marcada entre ricos e pobres, algo a que todos estavam acostumados. Diferente de hoje, quando essa desigualdade já não é tão facilmente aceita”, afirmou Antônio.
Evento no Uberlândia Clube. Da esquerda para a direita: Ruth Magalhães Tibery, Mariângela Tibery Zacarias, Claúdia Cunha Campos
Roberto Vieira da Silva
O Uberlândia Clube levou a elite local a abandonar os antigos barracões e as salas de cinema alugadas.
A mudança foi tão significativa que, a partir do animado Carnaval de 1937, as frequentadoras do Clube começaram a ser chamadas de “madames” nas colunas sociais.
Lúcia Fonseca, Marzinha e Tereza Finotti, participaram de desfile de moda no Uberlândia Clube
Roberto Vieira da Silva
Desde a primeira sede, no Edifício Central de José Abdulmassih, o elegante Uberlândia Clube se consolidou como símbolo de bom gosto e referência em festas memoráveis.
“O primeiro negro a entrar no clube foi o Lotinho, primeiro fundador da escola de samba do Patrimônio”, relembrou Antônio.
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Novos ares
Evento no Uberlândia Clube
Roberto Vieira da Silva
O crescente prestígio do Uberlândia Clube atraiu muitos novos associados de modo que, de repente, ficou pequeno. Foi então que um novo clube foi projetado.
Para isso, o estado doou o terreno necessário, que ficava na Rua Santos Dumont, nos fundos do Grupo Escolar Bueno Brandão.
“Ali tinha sido a quadra da Associação Atlética Uberlândia, tricampeã do interior de basquete, nos finais da década de 1930. Projetada a construção, bancada pelos associados, as atividades do clube foram paralisadas em 1951. A inauguração se deu nos dias 17 e 26 de fevereiro de 1957”, contou o historiador.
Conjunto musical tocando no Uberlândia Clube
Roberto Vieira da Silva
Em seus tempos de maior prestígio, o Uberlândia Clube chegou a reunir cerca de 1.200 sócios e, na época da inauguração, foi considerado o maior e mais sofisticado clube de Minas Gerais. A construção custou 25 milhões de cruzeiros e contava com uma ampla área recreativa de 2.000 m², que abrigava salões de dança, biblioteca, salas de jogos, auditório, bar, serviço de som, câmara frigorífica e até um sistema interno de telefones.
O espaço ainda oferecia um terraço de 1.000 m², todo ajardinado, ideal para festas ao ar livre. Entre os frequentadores, mil eram sócios proprietários, e cada ação tinha o valor expressivo de 25 mil cruzeiros.
“No térreo, há uma grande porta de vidro central que serve de acesso ao interior do clube propriamente dito; esta porta é marcada por uma cobertura rebaixada que chega até a fachada, abre-se para um hall que possui um painel de pastilha, um pequeno espelho d’água e uma suntuosa rampa circular que leva a outro hall no segundo pavimento, no qual se distribuem os ambientes: dois salões de festas, sanitários, restaurante, bar e boate. O terceiro pavimento é acessado por uma escada que parte do bar. Nele encontram-se a sala da diretoria, a biblioteca, dois sanitários e um segundo salão de festas, resultado de uma adaptação posterior à sua inauguração, no lugar do terraço jardim original”, dizia um material de divulgação da Prefeitura à época.
Décadas depois, o Uberlândia Clube foi tombado como patrimônio histórico pelo Decreto Municipal nº 10.223, de 29 de março de 2006.
Interior do Uberlândia Clube
Roberto Vieira da Silva
Reinauguração
No início de 2025 houve um rumor de que o clube, que reúne sonhos e saudades voltaria à ativa, contudo, um dos responsáveis pelo local, Fernando Morais, esclarece que ainda não há previsão para a conclusão das obras no Uberlândia Clube.
"Estamos trabalhando para tentar finalizar tudo até o fim do ano, mas, no momento, ainda não dispomos da quantia necessária para realizar a reforma. Também é impossível estimar o valor total da obra, já que o prédio é um patrimônio histórico e muitas peças e materiais não são encontrados prontos, o que torna o processo mais complexo."
Apesar dos desafios, a expectativa é muito positiva. O Uberlândia Clube é um espaço de grande importância histórica e cultural para a cidade. Muitas famílias celebraram casamentos, formaturas e participaram de festas nacionais e internacionais no local.
"Nossa intenção é investir fortemente na área cultural e transformar o clube em um centro de formações, cultura, relacionamento e conhecimento para Uberlândia. Ressuscitar o palácio encantado, como ele era chamado", finalizou Fernando.
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