MP aponta que fintechs da Faria Lima continuaram ocultando dinheiro do crime organizado em SP; movimentaçãos chegam a R$ 26 bilhões
28/05/2026
(Foto: Reprodução) 'Fluxo Oculto': operação faz buscas na Faria Lima, em SP
A nova fase da Operação Carbono Oculto, chamada de ‘Operação Fluxo Oculto’, aponta que fintechs sediadas na Avenida Brigadeiro Faria Lima – o coração financeiro de São Paulo – continuavam ocultando dinheiro do crime organizado, mesmo após a ação realizada em agosto do ano passado.
Segundo o Ministério Público de São Paulo, mesmo após a deflagração da operação em 2025, o grupo não interrompeu as atividades. Pelo contrário, houve aumento do volume de desvio de nafta e abertura de novas empresas de fachada para ocultar o dinheiro do esquema.
Os relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas e suspeitas de quase R$ 26 bilhões e a retomada do uso de fintechs e plataformas de pagamento, que funcionaram como “dutos financeiros” do grupo criminoso.
Os promotores afirmam que a organização ligada ao grupo criminoso Primeiro Comando da Capital (PCC) se reestruturou rapidamente, expandiu as operações, e manteve o mesmo padrão criminoso detectado no ano passado.
Dinheiro apreendido pela ‘Operação Fluxo Oculto’ na manhã desta quinta-feira (28).
Reprodução/TV Globo
Um dos principais pontos da investigação desta quinta-feira (28) foi o acesso às contas gráficas vinculadas às chamadas “contas bolsão”, que as fintechs mantinham em bancos tradicionais.
Até então, todo o dinheiro que a fintech movimentava em uma determinada conta vinculada a bancos tradicionais não informava qual cliente era dono de cada parte do dinheiro que estava nas contas bolsão.
Essas “contas bolsões” criaram um ponto cego para o sistema antilavagem de dinheiro. Esses mecanismos trouxeram múltiplas possibilidades para a blindagem patrimonial e a lavagem de capitais, segundo revelou a 1ª fase da operação.
Com o acesso às contas gráficas, os promotores conseguiram o registro interno das transações, como origem e destino, remetente e beneficiário da conta de pagamento, efetuado pela instituição de pagamento, relacionada à “conta bolsão”.
Isso só foi possível porque, nessas contas gráficas, os recursos dos usuários transitam por contas mantidas em nome da própria fintech junto a bancos tradicionais.
‘Operação Fluxo Oculto’ explica diferença das contas usadas para ocultar dinheiro do PCC através de fintechs na Av. Brigadeiro Faria Lima.
Reprodução/TV Globo
Operação Fluxo Oculto
O grupo de atuação e combate ao crime organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal realizam na manhã desta quinta-feira (28) uma nova fase da Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis.
A ação cumpre 55 mandados de busca e apreensão em quatro estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Esta fase da operação tem como foco revelar que, mesmo após a deflagração da Carbono Oculto, em agosto de 2025, a organização criminosa continuou agindo para lavar dinheiro, adulterar combustíveis e sonegar impostos.
Um dos prédios alvos da megaoperação na Avenida Faria Lima, famoso centro financeiro do país
David Irikura/TV Globo
Os principais alvos são empresários, operadores logísticos e laranjas do esquema, que, segundo a investigação, continuaram atuando mesmo após operações policiais anteriores, como a Carbono Oculto, evidenciando alto grau de organização.
O grupo passou, por exemplo, a concentrar movimentações de dezenas de postos para tentar despistar fiscalização e as investigações.
Em um dos casos, as operações de 56 postos de combustíveis eram feitas em uma única conta. Além disso, os alvos migraram, nos últimos meses, recursos entre várias fintechs e usaram novas empresas para substituir antigas já expostas.
A investigação mostrou que o esquema, liderado por Mohamad Hussein Mourad (o "Primo") e Roberto Augusto Leme da Silva (o "Beto Louco") manteve a lavagem de dinheiro por meio de fintechs, alterando empresas e quadros societários para continuar ocultando patrimônio da adulteração de combustíveis e sonegação de impostos, e mantendo conexões com o PCC.
Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.
Divulgação/MP-SP
Os dois estão foragidos desde agosto do ano passado, mas em decorrência da Operação Tank, deflagrada pela Polícia Federal no mesmo dia da Carbono Oculto.
Eles tentaram fechar um acordo de delação premiada com o MP de São Paulo, mas a proposta foi rejeitada pelos promotores. Para o MP, os empresários omitiram informações sobre lavagem de dinheiro, conexões do esquema com o PCC e corrupção policial.
Os relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas e suspeitas de quase R$ 4 bilhões e que o uso de fintechs e plataformas de pagamento funcionaram como “dutos financeiros” do grupo.
Mohamad Hussein Mourad, conhecido como "Primo", e Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco"
Montagem g1/Reprodução/Redes sociais/Polícia Civil
Máfia do nafta
Em outras duas frentes de atuação na operação de desta quinta-feira, os agentes cumprem mandados contra empresas e pessoas que atuavam na “máfia do nafta” e adulteração de combustíveis.
O grupo usava empresas de solventes petroquímicos importados, que possuem tributação muito inferior, para serem vendidos ilegalmente como gasolina automotiva.
O prejuízo com a sonegação fiscal é estimado em mais de R$ 200 milhões na diferença tributária contabilizada.
Esta fase está dividida em três frentes. Veja abaixo.
FRENTE 1: Engenharia Financeira e Lavagem de Capitais via Fintechs
Esta frente atua como o "duto financeiro" da organização criminosa liderada por "Primo" e "Beto Louco", viabilizando a ocultação do patrimônio bilionário e mantendo conexões com o PCC.
Modus Operandi: O grupo usa instituições de pagamento para lavar dinheiro, valendo-se do modelo de "contas-bolsão" e "contas gráficas". Os recursos de dezenas de postos de combustíveis da organização são depositados em uma única conta bancária sob o CNPJ da fintech ("conta-bolsão").
A separação de quem é o dono do dinheiro ocorre apenas no sistema interno da fintech ("conta gráfica"), criando um ponto cego (camada de ocultação) que impede o Banco Central e o COAF de rastrearem a origem, o destino e os reais titulares dos recursos. Quando o esquema sofre fiscalização, a organização migra rapidamente os recursos de uma fintech para outra.
Pessoas e Empresas Envolvidas:
Lideranças e Operadores: Mohamad Hussein Mourad e "Beto Louco" (líderes), Lucas Tomé Assunção (gerente contábil do grupo).
Fintechs e seus Gestores: BK Bank, Ceopag (ligada a Kawel Rodrigo Lotti), Sispay (Marcelo Artur Motta Ramos Marques e Vera Lucia Teixeira), Vpay, Yaw e Smart Solutions Group.
Conexões com o PCC: A Yaw interligou-se ao esquema via Shelby Holdings, empresa atrelada a Ricardo Romano (investigado por ligações com o PCC). A Sispay revelou vínculos com Luiz Sérgio Ferreira da Mota, alvo de operações anteriores contra a máfia dos ônibus ligada à mesma facção.
• Valores Movimentados:
o A Smart Solutions Group movimentou mais de R$ 1,2 bilhão, sendo cerca de meio bilhão de reais destinado unicamente à GGX Global (holding de postos do grupo criminoso).
o A Ceopag registrou movimentações atípicas em curtíssimo prazo de R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos.
o No total consolidado, relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas de sujeitos obrigados na ordem de R$ 3,86 bilhões.
FRENTE 2: A Máfia do NAFTA e Adulteração de Combustíveis
Esta frente expõe a fraude física e tributária: o desvio de solventes petroquímicos importados (NAFTA), que possuem tributação muito inferior, para serem vendidos ilegalmente como gasolina automotiva.
• Modus Operandi: Produtoras e importadoras de solventes emitem milhares de notas fiscais falsas ("espelho") atestando a venda de NAFTA para empresas químicas de fachada. Essas falsas indústrias químicas são registradas em nome de "laranjas" (frequentemente pessoas vulneráveis ou beneficiárias de programas sociais) em endereços fictícios. Na realidade, o produto físico nunca chega a essas empresas; os caminhões desviam a rota e descarregam o NAFTA diretamente em distribuidoras e terminais terrestres, onde o solvente é misturado à Gasolina Tipo A. O combustível adulterado é, então, revendido aos consumidores finais nos postos.
• Pessoas e Empresas Envolvidas:
o Núcleo de Comando e Produtoras: Raffaele Vestenius Masi e Aldo Antônio Masi (titulares e gestores de fato da produtora Petrodansk), auxiliados por João Eduardo de Albuquerque (gestor operacional). A empresa SMAX também emite notas para a fraude.
o Logística e Laranjas: Ítalo Giovanni Bergamo (coordenador do recrutamento de laranjas e emissão de conhecimentos de transporte), Igor de Souza Amorim e Gilmar Amorim (logística). Michele Gomes Vieira Silva e Simone Alves de Oliveira atuaram abrindo dezenas de empresas de fachada (como MGK, Zurk, Kore Transportes).
o Distribuidoras e Terminais (Destino real): Distribuidora Saara, Petroriente Distribuidora e os terminais terrestres Tercom (Paulínia) e Arujá Terminais.
• Valores e Volumes Identificados:
o Desvio comprovado de mais de 135 milhões de litros de NAFTA em pouco mais de dois anos.
o Apenas a Petrodansk emitiu mais de 10.076 notas fiscais falsas, totalizando R$ 1,49 bilhão.
o O prejuízo com a sonegação fiscal é estimado em mais de R$ 200 milhões (precisamente R$ 201.817,24) na diferença tributária auferida.
FRENTE 3: Ocultação Patrimonial via Fundos de Investimentos (FIDCs)
Como complemento direto da Máfia do NAFTA, o grupo utiliza o mercado financeiro formal para liquidar as operações fraudulentas e mascarar os beneficiários do lucro da adulteração.
• Modus Operandi: Para que o dinheiro da gasolina adulterada retorne de forma "limpa" para as produtoras (Petrodansk/SMAX), as empresas-fantasma emitem boletos. Quem paga esses boletos são Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP). Contudo, as cessões ocorrem sem deságio (sem desconto) e com prazos curtíssimos (às vezes de 1 dia), o que subverte a lógica do mercado financeiro e prova que a transação é fictícia. Esses fundos são "fechados", possuindo apenas um ou dois cotistas, funcionando exclusivamente como uma camada final de lavagem de dinheiro (layering) para pagar faturas ilícitas.
• Pessoas e Empresas Envolvidas:
o Fundos: Zeus FIDC-NP, Gran Capital FIDC-NP e FIDC DB Crédito Global.
o Gestores/Beneficiários: Guilherme Mourão Vaz (Diretor da Actual DTVM/Gran Capital), Edward Bertelli Júnior (Libertas Asset), Luis Roberto Zaratin Soares (Ello Gestora). Na ponta dos beneficiários, figuram Gledson Pacheco e Antônio Correa de Freitas Junior (que operam a Nova Rubília Instituição de Pagamento e a distribuidora Saara), e Guilherme Ali de Paula (Pix Card / Atena FIP).
• Valores Identificados:
o Para o bloqueio de bens (confisco), a operação mirou o patrimônio líquido dos fundos que serviam de duto: R$ 85 milhões (Zeus), R$ 72 milhões (Gran Capital) e R$ 47 milhões (DB Crédito Global).