'Curva de deslizamentos' anunciava tragédia que matou mais de 60 pessoas em Juiz de Fora
Especialista do Cemaden analisa causas e riscos da tragédia em Juiz de Fora
Juiz de Fora viveu, na última semana, a pior tragédia da história recente da cidade: 64 pessoas morreram, em sua maioria soterradas devido aos deslizamentos de encostas causados pelas fortes chuvas, que marcaram fevereiro como o período mais chuvoso já registrado no município.
Porém, essa catástrofe geológica não pode ser considerada uma surpresa. Afinal, o número de deslizamentos contabilizados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já alertava que a instabilidade do solo juiz-forano estava cada vez mais recorrente.
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A curva de deslizamentos - e, consequentemente, de riscos - vinha subindo desde 2020 e atingiu pico em 2023. Apesar de 2024 e 2025 terem apresentado redução, os índices ainda estavam acima do patamar pré-2020, sem trazer a cidade de volta ao nível anterior.
"Grande parte desses desastres ocorreram em áreas que já estavam mapeadas. Então, isso por si só, já é um fato que evidencia que sabíamos que haviam pessoas morando em áreas altamente suscetíveis e que, na iminência de uma chuva muito torrencial, essas populações poderiam ser impactadas", explicou o diretor substituto do Cemaden, Pedro Ivo Camarinha.
Histórico de deslizamentos em Juiz de Fora
🔎O Cemaden contabiliza os deslizamentos por meio de notificações realizadas pela Defesa Civil, por meio de notícias cujas informações são criteriosamente checadas e também por imagens de satélite.
Os dados mostram baixa recorrência de deslizamentos até 2019, apresentam quebra de patamar a partir de 2020, pico fora da curva em 2023 e, em 2026, a tragédia escancara a tendência: 1.243 escorregamentos de talude registrados pela Defesa Civil municipal, de janeiro até o fim da tarde de sexta-feira (27).
Em termos de escala, isso representa quase 22 vezes mais deslizamentos de terra que o pior ano isolado (2023) já registrado pelo Cemaden, que mantém uma base de dados da cidade desde 2016.
"Realmente, mudou o padrão nos últimos anos. A gente está tendo mais chuvas sendo registradas aí no município, principalmente a partir de 2020. E a gente sabe que isso é verdade porque os nossos alertas também aumentaram muito a partir de 2020”, afirmou Camarinha.
A maior recorrência de deslizamentos nos últimos seis anos em Juiz de Fora mostra que a cidade convive com mais gatilhos: solos mais encharcados por mais tempo, encostas sob pressão e a necessidade de agir preventivamente diante dos primeiros sinais de instabilidade.
O que as autoridades já sabiam antes da tragédia da última semana
Juiz de Fora figura entre as 10 cidades com maior população em áreas de risco desde 2018, segundo Pedro Ivo Camarinha. Veja ranking mais abaixo.
Por isso, a tragédia atual não surge sem avisos. É a confluência de mais chuva, solo e encostas fragilizados ao longo dos anos e de ocupação de áreas suscetíveis — um cenário que o próprio sistema de alertas já vinha sinalizando, pelo menos desde 2023.
Por que 2026 levou tudo ao extremo?
Hidrologia: fevereiro excepcionalmente chuvoso. Foram mais de 750 milímetros, número três vezes superior ao que era esperado para o mês, ou seja, com dias seguidos de precipitações o solo satura e perde resistência;
Base fragilizada: a quebra de patamar desde 2020 e o pico de 2023 indicam maior recorrência de gatilhos (mais eventos por ano), antes da tragédia atual;
Exposição: ocupação de encostas e déficits de obras e fiscalização transformam um evento extremo em desastre humano;
Capacidade de resposta com gargalos: aperto e bloqueios orçamentários dificultam a manutenção de programas contínuos de prevenção (drenagem, contenções, remoções).
Mortes em Juiz de Fora durante desastre de fevereiro de 2026
Verbas para prevenção de desastres foram reduzidas
O Governo de Minas Gerais reduziu em 95,6% as verbas de programas contra impactos das chuvas nos últimos três anos. Segundo dados do Portal da Transparência estadual analisados pelo jornal O Globo e confirmados pelo g1, os investimentos do programa “Suporte às ações de combate e resposta aos danos causados pelas chuvas” registrou queda acentuada nos valores pagos:
R$ 134,8 milhões em 2023
R$ 41,1 milhões em 2024
R$ 5,9 milhões em 2025
Já a União fez um aperto nas despesas discricionárias (onde ficam verbas de investimentos e prevenção), o que reduz o espaço dos ministérios. Por isso, 2026 já começou com “cinto apertado” para investimentos e dando prioridade às emendas parlamentares (R$ 61 bi), o que comprimiu rubricas técnicas.
Além disso, em 2025, houve contingenciamento de R$ 31,3 bi, com uma das maiores contenções no Ministério das Cidades — pasta que concentra obras de drenagem e prevenção —, sinalizando menos folga para políticas anticatástrofe.
É preciso melhorar a gestão de riscos e de desastres
A maior recorrência de deslizamentos em Juiz de Fora nos últimos anos pede cuidado redobrado na leitura do que está acontecendo agora e nas decisões de curto prazo. De acordo com Camarinha, é necessário analisar e melhorar a gestão de riscos de desastres, que começa muito antes de um desastre se materializar, inclusive na expectativa de que eles não aconteçam.
"Não é só a chuva. A chuva pode estar sendo intensificada, mas muitos desses deslizamentos que causam impacto têm a ver também com como a gente tem ocupado essas encostas, para onde as cidades têm crescido, principalmente as populações mais vulneráveis", explicou o diretor substituto do Cemaden, Pedro Ivo Camarinha.
"Você pode ter a chuva extrema, você pode ter a ocorrência de deslizamentos, mas aquilo não chega a impactar a população ao ponto de ser um desastre. O que a gestão de risco busca é isso. E aí, são muitas frentes que devem atuar ao mesmo tempo", explicou.
Camarinha faz um paralelo entre desastres pluviométricos e desastres de avião: não é uma causa só, e grande parte pode ser evitada com prevenção. "Desastres são uma construção social ao longo do tempo", disse.
"Normalmente, há uma série de problemas que vão acontecer em sequência, muitas vezes negligenciados, que levam a desastres. Então, no caso de Juiz de Fora, não é diferente. Você tem uma cidade que é naturalmente muito suscetível a esse processo, que vem registrando chuvas volumosas e trazem preocupação, que já tinha ocorrências de deslizamentos ao longo do tempo, que já tinha mapeamentos de pessoas morando em áreas de risco. Hora ou outra, com as mudanças climáticas em curso, é esperado que um evento extremo aconteça nessa cidade. E aí, uma vez que ele acontece, tudo isso é explicitado. A causa mesmo é histórica, sobretudo, a manutenção dessas pessoas morando nessas áreas suscetíveis ao longo do tempo, sem ações efetivas para poder reduzir esses riscos."
Conforme ele, essa gestão de riscos, para ser eficiente, deve passar por várias etapas:
➡️Planejamento urbano
Segundo Camarinha, a primeira atuação que deve ser feita é evitar o avanço da área urbana de forma não controlada em direção às encostas. "Evitar que áreas que são suscetíveis, e nós conhecemos muito bem quais são essas áreas, que elas sejam ocupadas. Então, primeiro é ter políticas de ordenamento territorial, políticas de habitação, para que você também forneça soluções para alguns grupos sociais - que já se encontram e para aqueles que estão começando a ocupar - terem alternativas", afirmou.
➡️Fiscalização
Em seguida, o poder público deve fiscalizar para que o primeiro passo (evitar ocupação em encostas) seja cumprido.
➡️Manejo ambiental
O próximo passo deve ser o manejo das bacias hidrográficas, para que também garanta que as áreas conservadas, as áreas de muita inclinação, sejam preservadas e cuidadas.
➡️Educação ambiental
"Para que a população entenda essa problemática e não avance para essas regiões, além de aumentar a percepção dos riscos delas. Quanto maior for a percepção de uma pessoa que está morando ou está passando por uma área de risco, menor é a chance dela ser impactada durante um evento", disse Camarinha.
➡️Obras de infraestrutura
Podem ser obras de contenção de encostas e obras de reflorestamento, por exemplo, dependendo de como for o tipo de solução viável para a localidade.
➡️Defesa Civil preparada
Para isso, são necessários recursos humanos, recursos financeiros, viaturas, e condições para poder montar abrigos. Além de treinar os planos de evacuação junto com a população, para que as pessoas saibam como agir durante um evento como esse.
⭐População orientada
A população deve aprender a identificar possíveis situações de risco e, principalmente, deve ser orientada sobre como agir.
"Quando a população não sabe para onde ir ou não tem para onde ir, não tem esse direcionamento, o que sobra são as ações de autoproteção. Por isso, a importância da população ter essa percepção de risco, porque em muitos casos, o cidadão sabendo reconhecer uma situação de risco e ser conservador no sentido de antecipar as suas ações é que vai ser determinante para que ele pelo menos salve sua vida. Talvez perca o seu imóvel, perca os seus bens, mas pelo menos ele salvaguarde sua vida."
➡️Alertas antecipados
São necessárias ciência e tecnologia lado a lado para conseguir antecipar esses riscos de desastres. "Esse é o último recurso que a gente espera dentro da gestão de risco, esperando que essa gestão comece lá atrás. E, claro, esses alertas só vão ser efetivos se você tiver uma capacidade boa da Defesa Civil".
"Mas, no Brasil, todas as etapas da gestão de risco começam a falhar. E, hoje, tem um fardo muito grande em cima das instituições que fazem o monitoramento e o alerta e, principalmente, das defesas civis que, via de regra, não têm o reconhecimento e os recursos necessários para lidar com o desafio do dia a dia. O desafio da Defesa Civil, no geral, é muito maior do que a capacidade que eles têm em campo", afirmou Camarinha.
De acordo com Camarinha, na última segunda-feira (23), antes do temporal que atingiu Juiz de Fora, o Cemaden enviou ao Município um alerta de alto risco e grande probabilidade de deslizamentos significativos acontecerem na área urbana.
"Sabemos que muitas dessas frentes dentro da gestão são complexas, são caras e demoram bastante tempo. Então, acaba que no Brasil, hoje, é mandatório você ter sistemas de alerta cada vez mais bem orquestrados e as Defesas Civis sendo capazes de poder fazer essa atuação. Então, gente precisa colocar esses alertas como uma das prioridades, mas não deixando de cobrar do poder público que todo o resto da gestão de risco seja aceita", afirmou Camarinha.
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Juiz de Fora é a 9ª cidade com maior população em áreas de risco
De acordo com um levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Juiz de Fora é a 9ª cidade do Brasil com maior população em áreas de risco de deslizamentos, enchentes e enxurradas.
População de Juiz de Fora: 540.756 habitantes
Pessoas que vivem em áreas de risco: 128.946
Percentual da população em áreas de risco: 23,7%
Áreas de risco: Deslizamentos, enchentes e enxurradas.
VÍDEOS: veja tudo sobre a Zona da Mata e Campos das VertentesFONTE: https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2026/03/01/curva-de-deslizamentos-anunciava-tragedia-que-matou-mais-de-60-pessoas-em-juiz-de-fora.ghtml